Friday, February 09, 2007

Da lama ao caos

Procurava um tema para escrever esse artigo para uma reestréia digna em nosso coletivo virtual. Escolhi falar de um dos lugares que sempre me impressionou profundamente, sob aspectos diversos, por suas qualidades, defeitos e contradições: Pernambuco, no geral, e Recife, no particular.
Somos bombardeados cotidianamente, pela imprensa do eixo Rio-São Paulo por notícias de questionável interesse e relevância, quando não distorcidas, tomando o Sudeste (ou seria o vetor sudoeste paulistano e a Zona Sul carioca?) pelo país como um todo; ou pior, dos correspondentes em Nova Iórque, Londres ou Tóquio, com temas de suma importância, como por exemplo, o fato das novaiorquinas estarem optando pela solteirice (!?), ou ainda como a falta de neve nos Alpes suíços neste inverno europeu tem impedido os turistas de esquiar (!!!!?????). E assim seguimos desconhecendo nosso próprio país, nem tão distante e profundo assim.
Agora, se as elites sudestinas, particularmente a paulista(na) – a mais estúpida, predatória e reacionária do país, como definiu Mino Carta – optam por seguir desconhecendo o restante do país, pior para elas.
Pernambuco vem sendo, desde os anos 1970, foco de gestação de alguns dos mais interessantes e importantes movimentos de renovação e afirmação de uma cultura nacional, verdadeiramente antropofágica, cosmopolita e altiva, adaptando o mundo à sua identidade e produzindo o novo, e não macaqueando Miami, como a bugrada paulista.
Central em todo esse movimento é a figura do paraibano Ariano Suassuna, novamente Secretário de Cultura de Pernambuco, que sempre buscou a constituição de uma cultura nacional erudita calcada nas raízes populares nordestinas. Daí surgiu o Movimento Armorial, em 70, capitaneado por ele, desembocando no Mangue Beat, nos 90, que ele via com desconfiança, se não desprezo, mas que mostrou ao Brasil que poderíamos ser contemporâneos e cosmopolitas a partir de nossas raízes.
Vejo Recife como a síntese do passado e do que pode ser o futuro do país. É o reflexo de nossas mazelas, discrepâncias e contradições, degenerando quase sempre em exclusão e violência. Definitivamente Recife está muito longe de ser um paraíso. É, contudo, lugar de fusão e experimentação, onde se constrói um povo assumidamente mestiço, disso orgulhoso, que tem ciência de sua excepcionalidade no mundo. Ao menos, essa foi a imagem que me marcou profundamente nas minhas curtas andanças pelo Recife e nas boas conversas regadas a excelente cachaça com os companheiros de lá.
Infelizmente meu plano e do companheiro Daniel de montar um escritório/buteco lá não deu certo. O Giuliano vai dizer que a culpa é minha, que eu dou a idéia e depois furo. Mas quem sabe...
Um dia seremos todos pernambucanos!

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Tentei colocar isso na página, mas não consegui!!! Que merda acho que não tenho mais paciência com a internet...rs estou ficando um ciberanalfabeto...rs

Segue poesias para a Alma...teu Recife Estevam...



Evocação do Recife


Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!


A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão


(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.


Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras


Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

6:41 AM  
Blogger Giuliano said...

Falando em Pernambuco tivemos esta semana, mais precisamente no dia 9, o centenário do Frevo. Lugar interessante realmente!

7:12 AM  
Blogger Giuliano said...

Adelcke acho que o problema é que vc tem que criar uma conta no gmail. Pra fazer postagens e comentários....

Abraços

7:13 AM  

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