Monday, April 30, 2007

O espírito da Marselhesa


Texto extraído do sítio da Agência Carta Maior de 24 de abril de 2007


O espírito da Marselhesa
Não é hora de choramingar que a presidenciável francesa Ségolène Royal não é Rosa Luxemburgo, mas de cerrar internacionalmente fileiras em torno de sua candidatura contra a pior direita européia.
Flávio Aguiar


Produzido em 1942, o filme Casablanca, com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman e mais grande elenco, dirigido por Michael Curtiz, estréia no Brasil no ano seguinte, em 1943. O Brasil já declarara guerra ao Eixo. No filme, um refugiado tcheco (Victor Lazlo) com a mulher (Ilse Lund) se refugia em Casablanca, no Marrocos, então colônia francesa. Lá Ilse encontra Rick, soldado da fortuna encalhado num café, o Rick's, o mais importante da cidade. Rick e Ilse tinham se enamorado em Paris, quando ela, fugitiva, pensava que Victor fora assassinado na tortura pelos nazistas. Mas no momento em que ambos decidem fugir da França ocupada, Ilse descobre que Victor está vivo, e fica com ele. Rick, sem saber o que está acontecendo, foge amargurado, na companhia do fiel pianista Sam: ele lutara na Guerra Civil Espanhola, e seria morto pelos nazistas, prestes a tomar Paris. Casablanca está sob o governo de Vichy, os nazistas estão em toda a parte. Victor quer fugir para a América, Ilse redescobre sua paixão por Rick, Rick termina por redescobri-la também, enfim, para quem viu, um melodrama inesquecível, para quem não viu, o convite para que corra à loja mais próxima e compre, não alugue, o seu DVD.Há uma cena antológica, entre as muitas do filme, que quero recordar aqui: no café de Rick encontram-se oficiais nazistas, o dono, Ilse, Victor, uma garota de programa (antigamente o nome era outro) que saía com um oficial alemão, o chefe de polícia francês e corrupto, Sam, enfim, todo mundo e mais alguns passantes. Os oficiais nazistas começam a cantar canções marciais; num ímpeto, Victor se põe diante da orquestra do café e manda que toquem a Marselhesa. Com um aceno de cabeça Rick consente (Acho que ele já queria impressionar Ilse de novo. Ou estaria se lembrando de seu passado ainda recente nas brigadas internacionais, lutando do lado republicano na Espanha, contra os fascistas? Ou tudo junto incluído?). A orquestra puxa o hino francês e de todas as revoluções no mundo (talvez até mais do que a Internacional: os socialistas e comunistas, inclusive eu, que me perdoem), as notas enchem o café, todos cantam, inclusive a garota de programa que com esse gesto rompe com o oficial nazista que a acompanhava. Durante alguns minutos trava-se uma batalha musical no café, entre as canções nazistas e a Marselhesa, tão importante quanto as batalhas aéreas naquele momento entre a Luftwaffe e a British Royal Air Force no Canal da Mancha, ou aquela entre soviéticos e nazistas em Stalingrado. Afinal, vencidos, os nazistas cedem o espaço aéreo para a Marselhesa, e em todo o café (que será imediatamente fechado) ecoam gritos de Vive la France!No Brasil, nesta cena, as platéias dos cinemas em 1943 se levantavam o cantavam junto a Marselhesa, e quando ecoavam os Vive la France! na tela, o mesmo grito de liberdade ecoava nas platéias, eletrizante e eletrizando-as.É esse espírito da Marselhesa que precisamos reerguer das cinzas do desânimo, agora que se trava nova batalha fundamental para a humanidade entre Ségolène Royal e Nicolás Sarkozy nas ruas de Paris e de toda a França. Não devemos de modo nenhum enfraquecer o espírito crítico, deixar de observar as capacidades e incapacidades políticas das lideranças e frentes contendoras à direita e à esquerda. Mas também não adiante ficar choramingando ou esbravejando (no fundo é a mesma coisa) que Ségolène não é Rosa Luxemburgo nem a célebre Dolores Ybarruri, a célebre Pasionaria do Exército Republicano, que imortalizou frases como “no pasarán” e “é preferível morrer de pé do que sobreviver de joelhos”. Até porque porque se Ségolène, e é verdade, não é a sonhada Rosa do Povo, Sarkozy de fato é Sarkozy, um político que sabe ser habilidoso e truculento nas suas declarações, que neste momento catalisa o mais odioso ideário de direita na Europa e no mundo, mobilizando inclusive a Sombra racista que nunca abandonou completamente o Velho Mundo.Um novo painel simbólico se agita na Europa. É certo que as políticas das sociais-democracias foram se aproximando mais e mais das balizas neoliberais depois da retumbante queda comunista. Isso ajudou a criar aquela sensação de dissolução, cantada na mídia em prosa e versa, da “direita” e da “esquerda”. Isso de “esquerda” e “direita” parecia coisa da “América Latina atrasada”, a “América Latina de poncho e conga”, como já se disse por aqui (pra quem não sabe ou esqueceu “Conga” era um tipo de tênis muito comum entre os jovens da década de 60), da América Latina às voltas com esses “dinossauros” da história, como Chávez, Fidel, Evo, etc. Na Europa o espírito de 68, chamado internacionalmente de “soixante-huitard”, “sessentaeôitico”, o espírito da Marselhesa, a polarização decisiva, o reconhecimento de que há momentos decisivos em que batalhas decisivas se dão, fora dado como morto, peça de museu, nostalgia embrulhada em brumas dos que se preparam para suas batalhas decisivas com seus planos de saúde.Mas algo muda, e a polarização francesa aponta para isso. Zapatero, o primeiro ministro espanhol, e Prodi, o italiano, já deram seu apoio a Ségolène; Angela Merckel, a alemã, conservadora, apóia Sarkozy. Grande parte da esquerda francesa anuncia seu apoio a Ségolène. Pode ser um apoio crítico de tantos graus a bombordo, a estibordo ou aquele bordo, não importa. A Europa se latino-americaniza um pouco neste momento. Podemos até perder esta eleição. Mas o mais importante é retirar do sarcófago da história o espírito de luta, o espírito de solidariedade internacional, o espírito da Marselhesa que ressoava nos cinemas brasileiros e no mundo inteiro naquele longínquo 1943.

Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.

Monday, April 23, 2007

Álcool de Batata


Minha homenagem ao maior garoto propaganda da vodka - maravilhoso destilado feito de grãos e tubérculos, combustível dos gelados corações russos - o alegre, Boris Ieltsin. Talvez agora entenda a campanha do nosso presidente em prol do combustível de Cana-de-açúcar. Cada um tem o destilado que merece!
Saúde! Santé! Salut! Salud! Salute! Tin-tin! Chin-chin! Kampai! Prosit! Proost! e para os russos Na Zdorov!

Intervindo da eleição francesa

Já que os gringos vivem se metendo na política, eleições, economia, futebol, cultura, educação, e outros que tais, dando pitaco em tudo quanto é assunto e tratando a gente que nem índio, como se precisássemos de conselho ou da bênção da Metrópole, resolvi inverter a situação.
Por isso estou lançando a campanha COMPÃO de apoio à candidatura de Ségolène Royal à presidência da França, contra o fascistinha do Sarkozy, o filho de imigrantes húngaros que odeia imigrantes e seus filhos. O propósito dessa campanha é intervir decisivamente na política francesa, em favor da candidatura socialista, utilizando esse espaço formador de opiniões, verdadeiro think tank do pensamento libertário mundial que é o nosso COMPÃO, capaz de alterar o balanço político da Europa Ocidental. Em breve sugestões para a redução da criminalidade na Virginia e contra o aquecimento global.

“Aux armes citoyens,
Formez vos bataillons.
Marchons! Marchons!
Qu'un sang impur
Abreuve nos sillons”

Wednesday, April 18, 2007

Caos (aéreo!?)


Charge do Maringoni na Carta Maior de 7 de novembro de 2006. Bela sacada!

Tuesday, April 17, 2007

Verde, Ouro e Azul...

Acabei de sair de uma degustação de whisky. Todos Johnny Walker oferecidos pela importadora.

Começamos pelo Green. Um puro malt com notas de menta e especiarias. O álcool e bem presente. Para quem gosta de fumar é uma combinação perfeita.

Passamos para um Gold: 18 anos de envelhecimento e um blend de malts. Um mel na boca, não se sente tanto o álcool, é mais forte, "torrado" e “viscoso” (forma “lagrimas” espessas no copo), incrível! Se garante sozinho, não precisa de acompanhamentos.

Por fim chagamos ao Blue Label: ao contrário do que muitos pensam aqui o envelhecimento não é o padrão mas sim o tipo do malt e é o que podem fazer de melhor, e realmente é especial (+ou- R$600,00 a garrafa). Agradou até os paladares femininos, lembrando que todos foram degustados puros, na temperatura ambiente, sem gelo e qualquer outra mistura.

Poderíamos fazer isto um dia em nossas petiscadas, parece caro mas uma garrafa equivalem a 22 doses. Tirando o Blue que tem o preço inviável o os outros podem ser bem acessíveis numa “cooperação alcoólica”.

E se passaram 23 anos...

Semana passada estava eu foliando, por curiosidade, um "Livro do Ano" da Enciclopédia Britânica de 1984 ( para que não sabe ou não tinha em casa era uma espécie de grande resumo dos fatos do ano que se passara). Quando me deparo com a foto do ex-vereador/prefeito/deputado estadual/governador/deputado federal (pelo menos nunca presidente!), Paulo Salim Maluf. Fui ver o que teria feito o ilustríssimo brasileiro. Começava assim o texto: “O dinheiro e da minha mãe” . Era alguma justificativa sobre o grande volume de dinheiro empregado na sua campanha daquele ano. O país evoluiu desde aquela reportagem, resta saber em que direção.

Prometo reproduzir na íntegra o texto e a foto numa postagem futura. Rir para não chorar...

Friday, April 13, 2007

"Quanto vale o show?"

Talvez uma questão que ajude na investigação seja a relação: Audiência = dinheiro. Enquanto os programas jornalísticos estiverem mais preocupados com o ibobe (quanto podem faturar com os seus intervalos milionários, segurar telespectadores para as novelas, etc...) dificilmente isto vai mudar. Enquanto os políticos continuarem a atuar de forma apenas reativa a pressão da mídia, como “celebridades estatais”, dificilmente isto vai mudar. Tudo é uma questão de audiência, TV com seu ibope, jornais impressos e sua circulação, internet e o fenômeno Youtube. Tudo é uma questão de dinheiro, não de gente, mas de faixa de renda, classe ou poder de compra.

Minha visão é pessimista, vejo uma sociedade cada vez mais hipócrita, individualista, cada vez mais confinada e como qualquer animal preso fica mais agressiva. Voltemos ao básico: Respeito! Amor! Como diria o Itaque: “ Depois falam que a culpa é do Lula”. E a gente, que é “mais gente”, também não tem mais culpa?! Acredito que sim. Coragem!

Thursday, April 12, 2007

Enquanto é entre eles.






















Em janeiro último um Siena foi encontrado em Del Castilho, na cidade do Rio de Janeiro com sete corpos. A moçada tinha saído numa kombi da Vila São João pra jogar futebol em Bonsucesso e no caminho foram, segundo as reportagens, seqüestrados, levados para o Morro do Adeus, torturados, mortos, esquartejados e colocados dentro do tal carro roubado. Nenhum deles tinha ficha criminal e segundo parentes não tinham ligação com o tráfico de drogas. A principal linha de investigação da polícia é de eles foram mortos por morarem em uma comunidade controlada por traficantes rivais aos do Morro do Adeus. No mês seguinte, outra tragédia, que todos tomaram conhecimento. O menino João Hélio não conseguiu sair do carro durante um assalto e, enroscado no cinto de segurança, do lado de fora do carro, foi arrastado pelas ruas de Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio. No caso dos rapazes da favela, ou comunidade, Vila São João a ação dos supostos traficantes tinha uma intenção muito clara de matar, com requintes de crueldade, para demarcar território ou coisa parecida. No outro caso a morte do menino foi um estúpido subproduto da ação de assaltantes que queria mesmo era levantar uma grana para sei lá o que. Não quero aqui nem descrever tragédias, nem comparar tragédias. O que quero é refletir sobre a repercussão que essas tragédias tomaram na sociedade e na mídia. Da primeira pouco se ouviu falar, uma semana depois virou apenas mais um fato na recente história de violência no Rio. A segunda continua na mídia até hoje, gerou debates (como o da redução da maioridade penal), provocou uma série de manifestações da sociedade civil e mobilizou inclusive a Câmara de Deputados. Penso que esses fatos devem ter grandes repercussões e reações, porém, tal reflexão me traz a seguinte questão: o primeiro caso não mereceria uma repercussão similar a do segundo? Quanto a isso, também tenho uma linha de investigação. Será a sociedade brasileira, ou carioca, tolerante a tragédias desde que elas envolvam apenas os pobres, moradores de favelas e subúrbios? Parece que as coisas só tomam outra proporção quando a tragédia rompe essas fronteiras sociais. Mas gente, não é tudo gente?

Monday, April 09, 2007

Desesperança

Jovens do projeto Criança Esperança no espaço do Aglometado da Serra

Voltando à nossa trinca campeã de audiência, discriminação, cultura e ideologização, não necessariamente nessa ordem de sucesso, relato um fato que tem me chamado muito a atenção ultimamente.
Toda vez que se apresenta um desses ditos “projetos sociais”, com aquele monte de criancinhas jogando capoeira ou tocando tambor em vez de estar assaltando o carro dos ‘bacana’ no semáforo, principalmente naquelas inserções do Criança Esperança, se vê sempre a mesma coisa. Quando perguntam a um moleque o que ele quer ser quando crescer não dá outra: jogador de futebol. Se é menina, atriz. Ninguém quer (ou, temo, não se acha capaz de) ser médico, jornalista, advogado ou, vá lá, arquiteto. De onde se deduz o seguinte: essa porcariada de “projetos sociais” é um dos maiores programas de analfabetização funcional do país, garantindo o exército de mão-de-obra de reserva de futuros porteiros, domésticas, cozinheiras e babás. Mas não cidadãos completos, aí já seria demais!
Pra resolver esse paradoxo é boa a lembrança das ações dos Tupamaros, guerrilheiros urbanos marxistas que lutaram contra a ditadura uruguaia nas décadas de1960 e 1970 e estão muito bem retratados no filme “Estado de Sítio” de Costa-Gavras. Em uma de suas ações, os Tupamaros atacaram uma boite da moda em Montevidéu, absolutamente exclusiva da elite conservadora uruguaia, incendiando-a e pichando em suas paredes: “O bailan todos, o no baila nadie”. Sem comentários...

Wednesday, April 04, 2007

FAU terá residência em habitação popular

Essa é interessante! Porém, ao ler a matéria você descobre que não tem nada certo, ao contrário do que dá a entender o título e o início da matéria. Assim fica difícil de saber se nossa imprensa age de má-fé ou se é só ruim mesmo!


FAU terá residência em habitação popular

O laboratório é a cidade. O desafio, descobrir novas formas de solucionar velhos problemas urbanos. A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo (FAU-USP) instituirá, a partir de 2008, um programa de residência para recém-formados com duração de dois anos. Eles trabalharão nos programas de moradia popular da Secretaria Estadual de Habitação. Com remuneração de R$ 1.950 por mês, o programa funcionará como a residência em Medicina, em que os estudantes trabalham nos últimos dois anos em hospitais públicos.
Como se trata de projeto piloto, não será obrigatório e selecionará, no primeiro ano, 20 formandos. Além de aplicar na prática o que aprenderam em sala de aula e, assim, ganhar experiência, serão um reforço nos quadros da Prefeitura. "Há poucos arquitetos nos órgãos públicos para o tamanho da demanda nas camadas de menor renda, não atendidas pelo mercado imobiliário" diz o arquiteto e urbanista Caio Santo Amore, formado pela FAU e que há dez anos trabalha para a ONG Peabiru, que presta assessoria técnica para movimentos de moradia e para a Prefeitura em habitação popular, como mutirões.
O diretor da FAU, Sylvio Barros Sawaya, diz que, se der certo, serão criadas residências em outras áreas, como saneamento. Para ele, o programa é via de mão dupla. "Recém-formados colocarão os pés no chão da realidade. Ao mesmo tempo, funcionários públicos que lá estão poderão tirar a poeira da mente, com as idéias trazidas pelos residentes", diz.
Ainda não está definido, no entanto, quem arcará com os custos da residência, que está sendo articulada pelo deputado federal (PFL-SP) e secretário estadual de Ensino Superior, José Aristodemo Pinotti. O secretário estadual de Habitação, Lair Krähenbühl, disse que arcará com um estágio precedente à residência, com bolsas de R$ 600 a R$ 800 para alunos do quinto ano da FAU. "Seria um treinamento pré-residência, remunerado pelo CDHU", garantiu. A residência será gerenciada pela Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), vinculada à Secretaria de Gestão Pública.
Os residentes serão supervisionados por um professor da FAU e, ao final do programa, terão de submeter à avaliação da universidade um projeto de especialização. Arnaldo Martino, presidente da Seção São Paulo do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-SP) elogiou a iniciativa. "O que forma os arquitetos é a experiência prática." Segundo ele, a residência em arquitetura já é uma realidade nos países europeus e em universidades americanas.
"Ao se formar, muitos estudantes não têm o conhecimento dos problemas urbanos na dimensão que deveriam", diz a socióloga Maria Ruth Amaral de Sampaio, coordenadora do Laboratório de Fundamentos da FAU, que defende a residência há anos. Ela orientou, por exemplo, 20 de seus alunos que durante um semestre de 2002 se transferiram da sala de aula para um cortiço da Rua Solon, no Bom Retiro. O resultado foi um projeto de requalificação entregue aos moradores que, com a ajuda da iniciativa privada e algumas economias, estão reformando o prédio, hoje regularizado.

Fonte: O Estado de S.Paulo / 30/03/2007