Enquanto é entre eles.

Em janeiro último um Siena foi encontrado em Del Castilho, na cidade do Rio de Janeiro com sete corpos. A moçada tinha saído numa kombi da Vila São João pra jogar futebol em Bonsucesso e no caminho foram, segundo as reportagens, seqüestrados, levados para o Morro do Adeus, torturados, mortos, esquartejados e colocados dentro do tal carro roubado. Nenhum deles tinha ficha criminal e segundo parentes não tinham ligação com o tráfico de drogas. A principal linha de investigação da polícia é de eles foram mortos por morarem em uma comunidade controlada por traficantes rivais aos do Morro do Adeus. No mês seguinte, outra tragédia, que todos tomaram conhecimento. O menino João Hélio não conseguiu sair do carro durante um assalto e, enroscado no cinto de segurança, do lado de fora do carro, foi arrastado pelas ruas de Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio. No caso dos rapazes da favela, ou comunidade, Vila São João a ação dos supostos traficantes tinha uma intenção muito clara de matar, com requintes de crueldade, para demarcar território ou coisa parecida. No outro caso a morte do menino foi um estúpido subproduto da ação de assaltantes que queria mesmo era levantar uma grana para sei lá o que. Não quero aqui nem descrever tragédias, nem comparar tragédias. O que quero é refletir sobre a repercussão que essas tragédias tomaram na sociedade e na mídia. Da primeira pouco se ouviu falar, uma semana depois virou apenas mais um fato na recente história de violência no Rio. A segunda continua na mídia até hoje, gerou debates (como o da redução da maioridade penal), provocou uma série de manifestações da sociedade civil e mobilizou inclusive a Câmara de Deputados. Penso que esses fatos devem ter grandes repercussões e reações, porém, tal reflexão me traz a seguinte questão: o primeiro caso não mereceria uma repercussão similar a do segundo? Quanto a isso, também tenho uma linha de investigação. Será a sociedade brasileira, ou carioca, tolerante a tragédias desde que elas envolvam apenas os pobres, moradores de favelas e subúrbios? Parece que as coisas só tomam outra proporção quando a tragédia rompe essas fronteiras sociais. Mas gente, não é tudo gente?

1 Comments:
Camaradas, é visível quão distante estamos de viver numa nação, efetivamente, republicana, completamente afastados da idéia da liberdade indissociável da igualdade, princípios formulados no século XVIII e que aqui nunca passaram de retórica. Como o Giuliano, também ando ficando bastante cético em relação ao futuro. Estamos na estrada certa mas andando no caminho contrário.
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