Ao Adelcke e demais companheiros

Foto: Sebastião Salgado
Comecei a escrever esse texto como comentário ao Adelcke, mas ele foi se estendendo, ficando amargo e angustiado, e resolvi colocar no blogue mesmo. Você está certo, companheiro. Não há projeto de país à vista. Qualquer prenúncio de desenvolvimento da nação, elevação de nossos horizontes, é rapidamente queimada, convertida em dólares e gasta em Miami. Nossa elite quer estar na ponta do consumo, e não da produção.
Pois é disso que se trata: um projeto de construção nacional empreendido por uma elite visionária, orgulhosa e ambiciosa, até onde a vista alcança escassa ou até inexistente nessas plagas. Porque a construção e implementação de um projeto de nação, em toda a história humana, é sempre levada a cabo por uma elite hegemônica que traça seus objetivos paralelos aos objetivos da nacionalidade, dando o salto para um novo patamar. Isso aconteceu com revolução, como na França e na Inglaterra, ou conservadoramente, como na Prússia e no Japão. Mas em todos esses lugares atrelou-se o destino desses grupos ao da nação e do povo (ainda não se falaria em luta de classes).
Falemos do Grande Irmão do Norte. Os caras pariram um país no meio daquele sertão a ferro e fogo, e tinham um projeto. Ou ao menos o foram construindo e aprimorando com esmero nos últimos 200 e tantos anos. A elite americana não queria o bastante, o suficiente, ou mesmo muito. Ela queria tudo... e botou pra quebrar. Já os nossos caboclos estão muito ocupados importando vinhos franceses e comida pra gato norueguesa para elaborar esse projeto. Enquanto der pra queimar mais uma etapa e viajar mundo afora aproveitando o dólar baixo está tudo certo.
De quando em vez surge uma retórica capenga falsamente esquerdista-nacionalista, atualmente bolivariana, dizendo que todos os nossos males são decorrência do imperialismo a que fomos submetidos ao longo da história. Mentira! O problema da Venezuela tem origem em sua própria elite, sem fanfarronice-anti-imperialista-chavista. A Bolívia e o Paraguai vem dizer que suas mazelas são decorrência do “imperialismo brasileiro”. Ah... deve ser isso, então. Realmente, Solano López era um democrata, socialista, bolivariano!!!
No Brasil, somos colonizados e submetidos pela nossa própria elite sem projeto, vendida ao capital internacional, é verdade, mas os ianques não meteram o pé na porta, eles foram convidados para a festa. Nunca teremos respostas se as perguntas continuarem erradas. O Golpe de 64 teve apoio da embaixada americana? É óbvio! Eles defendem seus próprios interesses, o que, diga-se de passagem, devíamos estar fazendo nós. Mas aquele 1° de abril teve DNA genuinamente nacional.
E onde devia estar sendo formado esse grupo dirigente da nação, capaz de construir um projeto de desenvolvimento autônomo e independente. Em São Paulo, coração econômico do país? Na USP? Talvez, já que faz quase quinze anos que de lá sai grande parte da intelligentsia (ou burritsia) nacional instalada no governo federal. Contudo, a universidade parece perdida em sua incompreensão do mundo entre um grupo tucano, que gostou de tomar vinho francês e dar comida importada pro bichano e esqueceu o que escreveu na década de 1970, e a esquerda-órfã-do-PT, que não consegue entender o mundo em que vive (porra, só na USP ainda existe essa discussão bizonha sobre esquerda reformista ou revolucionária). Fala-se de Socialismo com uma displicência constrangedora, até porque ninguém sabe mesmo que porra é essa. E tem um camarada que vem me falar de Socialismo Bolivariano... qualé!
Toda união nacional para mudança de rumos só é possível em virtude de um perigo maior, externo ou interno. Como não vejo probabilidade do Evo Morales tentar retomar militarmente o Acre, ao menos nos próximos seis meses, a chance é de dar merda aqui dentro mesmo. A panela de pressão tá no fogo há muito tempo, pronta para explodir. A violência urbana, que vai continuar crescendo, é um sintoma. É possível que isso aglutine forças para sairmos desse impasse para a construção de uma nação de verdade, com a igualdade e a justiça que estiveram de férias nos últimos cinco séculos. Mesmo porque dessa vez não dá pra nossa elite mandar uma expedição para exterminar os caboclos rebeldes, como em Canudos ou no Contestado. Os caboclos estão rebelados em todos os lugares. E não vão baixar as armas fácil assim... Mas não subestimemos a capacidade autista-alienante da nossa elite (veja-se a histeria com que ela lida com o MST e com o pau que deu na Virada Cultural), especialista em promover seu auto-engano de que é possível seguir nesse ciclo indefinidamente, vez por outra queimando tudo, convertendo em dólar e gastando em Miami...

3 Comments:
supriros....preciso pensar um pouco...
Tá um barato ver o governo do Estado morrendo de medo de mandar o Choque pra tomar a reitoria da USP. Mesmo porque dar borrachada na molecada branquinha que estudou no Santa Cruz é um pouco mais complicado que descer o pau em pobre morador de cortiço!
Qual seria o custo político para o serra, ex-presidente da UNE, quase candidato a presidência, caso abrisse as portas da USP para o choque ir pra cima dos estudantes?...Melhor fazer como o Aécio e ir no casamento da Wanessa Camargo...rs
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