Thursday, June 21, 2007

O Céu de Suely

Aproveitando o espaço para inaugurar a seção de crítica cinematográfica do Compão, comento o filme que vi na terça à noite aqui no SESC: O Céu de Suely.
Vocês devem ter visto ou ouvido algo sobre o filme. Munidos de boas críticas (ouvimos até dizer que ganhou um prêmio aqui outro ali) mobilizamos nossa noite de terça para uma agradável sessão grátis de cinema. Independente do auditório plano do SESC ser absolutamente inadequado para esse fim a noite prometia dar algum verniz à miséria cultural local, principalmente em relação a cinema (convenhamos, fora de Sampa é impossível assistir no cinema algo diferente de Shrek, Homem Aranha ou Piratas do Caribe...). Então vamos lá!
Tudo bem, sempre damos um descontão para a produção nacional – afinal, gostamos de nos ver na tela... o que quer que isso queira dizer -, mesmo depois daquelas aberturas com multi-patrocínios de empresas estatais – Petrobras, Eletrobrás etc – ou de empresas privadas, mas só com lei Rouanet! Ou seja, a maioria esmagadora da produção cinematográfica nacional só se viabiliza com verba pública. Só para efeito de constatação, sem nenhum juízo de valor se este dinheiro estaria sendo melhor aplicado em outro setor da vida nacional. Enfim, voltemos a nosso objeto, “O Céu de Suely”.
O filme parte de um bom argumento: uma mulher, para juntar dinheiro para deixar o sertão e mudar para o Sul do Brasil, rifa-se com a promessa de “uma noite no paraíso” ao ganhador.
Parênteses fundamentais: durante longo tempo procurei rebater às virulentas críticas de um amigo contra o cinema nacional. Resisti, resisti, mas em alguns pontos tenho que dar o braço a torcer. Fecha parênteses.
Vejamos. Algumas boas atuações, cercadas por um sem número de atuações sofríveis, com uma carga dramática na interpretação digna do Giuliano, o homem de gelo.
Agora, o principal: o cinema nacional é, quase sempre, de uma pobreza de roteiros impressionante. Bons argumentos se perdem numa incompetência atroz na hora de construir uma história com começo, meio e fim. Ou fim, começo e meio. Ou o que seja. É o samba do cineasta louco; um filme que poderia ser um bom curta se transforma num longa infernal. E o filme nem é ruim assim como está parecendo. Mas o pecado original da falta de roteiristas decentes no cinema brasileiro é berrado ao longo de uma hora e meia – devidamente disfarçado naqueles planos-sequência maçantemente longos.
Quem tem acompanhado a recente produção cinematográfica argentina percebe claramente a diferença. Produções de baixos recursos, locações mínimas, meia dúzia de atores e ótimos enredos! Esse novo cinema mexicano também é ótimo em saber contar uma boa história. Mesmo aquele filminho “Pequena Miss Sunshine”, divertidíssimo, tem como locação quase única uma Kombi. Kombi aqui é o que não falta! Aliás, se é para lembrar de bons filmes, que se reveja “O Pagador de Promessas”: bons atores, ótimo enredo, a única locação é uma escadaria que já estava lá antes das filmagens. Resultado: ótimo filme, e que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.
E esses putos desses cineastas locais que só pedem mais dinheiro e mais apoio governamental. NÃO é preciso mais dinheiro. É preciso sim muito mais competência! As produções da Globofilmes têm um orçamento milionário e filmes quase sempre sofríveis, com as honrosas exceções de sempre. Recentemente se filmou aqui a mega produção “Canudos”, com muito dinheiro, enredo terrível e o resultado intragável... como era de se esperar. “Carandiru” é outro filme insuportável! Outra grande oportunidade perdida.
Em suma, o problema é o “know how” ou, para evitar as acusações de que me rendi a Hollywood, o “savoir faire” cinema, que é, simplesmente, contar uma boa história que faça a gente sair da sessão ainda pensando no que acabamos de ver, instigados, alegres, perturbados... mas jamais indiferentes. Mas sem aqueles papos pernósticos de saída do Espaço Unibanco, por favor!

4 Comments:

Blogger Giuliano said...

Este,
Estou dando uma estudada em roteiros por conta de animação (pós-graduação)...é uma boa discussão. Podemos aprofundá-la. Muito de um filme se resolve com um bom roteiro.
Agradeço a citação de minha importante contribuição à interpretação minimalista, muito semelhante à mímica, ela é muito útil no Truco.
Abraços.

2:21 PM  
Blogger Adelcke said...

É Estevam...não sou um crítico tão aguçado como vc, mas creio que tenhamos que dar descontos...nada para as mega produções.
Boas opções: Lavoura Arcaica e o ótimo enredo do Cidade de Deus.

3:49 PM  
Blogger Giuliano said...

Tenho o roteiro do Cidade de Deus. Se for do interesse de alguem eu mando por e-mail....

Gostei do "Cheiro do Ralo". O roteiro e a fotografia são muito bons e bem resolvidos. Cameras praticamente paradas, talvez por que o diretor tenha saido do mundo dos quadrinhos e um humor negro inteligente...

Umo outra sujestão é o "Labirinto do Fauno", que retrata o a visão de uma menina das transformações ao seu redor no regime de Franco. Fábula e Realidades andam em paralelo...Um fime fabuloso...

5:10 PM  
Blogger estevam said...

Outro filme muito bom da recente safra sulamericana é o uruguaio "Whisky" (aliás, alguém conhece algum outro filme uruguaio?) História muito bem construída, tendo por pano de fundo a decadência econômica e social das repúblicas platenses, num tom de comédia muito inteligente... mas doída!

4:47 AM  

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